Fazendo a Paz com Nossas Limitações

Em Contos do Hasidim de Martin Buber lemos que o rabino Simcha Bunim de Przysucha ensinou: “Todos devem ter dois bolsos. No bolso direito temos um pedaço de papel com as palavras: O mundo foi criado para o meu bem(Mishnah Sanhedrin 4:5) “E no bolso esquerda: eu sou apenas poeira e cinzas.” (Gênesis 18:27)

Eu amo este ensinamento, pois é tão perceptivo sobre a natureza humana. Às vezes deixamos nossas inseguranças nos dominarem. Às vezes sentimos que tínhamos as ferramentas para fazer melhor, mas não fizemos, e nos julgamos duramente. Para esses momentos, diz Reb Simcha Bunim, é preciso fugir do ciclo vicioso da auto recriminação. Devemos dizer e sentir nesses momentos: o mundo foi criado para o meu bem. E há momentos em que estamos convencidos demais de nossos potenciais. Só vemos o que fizemos certo, no que nos destacamos, tendo um pouco de arrogância. Para estes momentos Reb Simcha Bunim diz, lembre-se que você é feito de argila,e que ao pó você voltara’. Você não é melhor do que ninguém.

Reb Simcha Bunim acredita em equilibrar nossos altos e baixos. Se nos inclinarmos demais na direção da auto recriminação, ou na direção contraria, não seguiremos em frente. Houve muitas vezes no ano passado que eu me critiquei por não ter dito algo, não ter tentado outras coisas, por ter desperdiçado tempo que poderia ser usado produtivamente. E houve vezes em que eu só me concentrava nas coisas que eu terminei, nos momentos produtivos, naquilo que eu tinha conseguido. Não passava muito tempo e eu voltava a me criticar por não fazer o suficiente. Estava vivenciando um ciclo vicioso que me deixava ancorada, sem ir para frente.

Há um ditado atribuído ao Buda: “Tudo o que você frequentemente pensa e pondera, se tornará o hábito de sua mente.”

Reb Simcha Bunim nos ensina que para nos libertarmos deste ciclo de pular entre dois extremos temos que encontrar o equilíbrio entre a auto repreensão e o engrandecimento sem limites. Alcançar um equilíbrio em nosso processo de pensamento nos ajuda a seguir em frente, nos libertando deste hábitos improdutivos de nossas mentes, desenvolvendo uma imagem mais verdadeira de nós mesmos, nossas capacidades e as capacidades das pessoas ao nosso redor. Desenvolvemos mais compaixão por nós mesmos, e pelos outros.

Afinal, todos cometemos erros. No final da primeira parte da leitura da Torá do ano, lemos (Gênesis 6:6): “E o Eterno se arrependeu de ter feito o humano na terra e estava de coração entristecido.” A Torá faz uma declaração ousada. O Eterno lamenta suas ações, refletindo sobre sua própria criação. O Eterno se arrepende daquilo que criou. Pensar que até Deus precisa dos dois pedaços de papel para seguir em frente e’, de certa forma, liberador. É animador saber que tanto o Divino quanto nós não temos a obrigação de estar corretos o tempo todo. A Torá está nos ensinando que o objetivo da vida não é a perfeição—o objetivo é o equilíbrio. A maneira ideal de viver é equilibrar nossas vitórias pessoais com a abertura para mudar comportamentos e padrões que não nos tem serventia. Em nossa tradição, não somos totalmente perfeitos nem estamos totalmente errados, nem completamente no controle de tudo, nem completamente fora de controle.

Estamos vivendo um momento extremamente difícil. Creio que todos nos sentimos perdidos, ansiosos, tentando combater as forças destrutivas ao nosso redor sem a certeza de que nossos esforços não serão em vão. Estamos finalmente confrontando e dialogando sobre racismo, sexismo, disparidades socioeconômicas e a destruição do meio ambiente. Essa conversa trouxe à tona as profundas divisões e preconceitos que sempre existiram, dividindo famílias e amizades. A pandemia COVID-19 está exacerbando essas questões, deixando claro os limites do nosso poder e da nossa agência. Não acho que sou a única a experimentar a frustração da corrosão de nossa moral e nossa ética, da disseminação da desinformação e da realidade de nossa mortalidade. Estamos confrontando nossas limitações, não só em nossos movimentos, mas em nossa capacidade de efetivar mudanças, ver o fim da intolerância, viver em um mundo redimido.

Este é o momento de se concentrar no ensinamento de Reb Simcha Bunim. Minhas sensações de estar fora de controle e sem habilidade de agir são proporcionais à arrogância de imaginar que eu posso, sozinha, resolver todas as situações. Sim, tenho que tentar, parar e enfrentar minhas limitações. Mas não sou a autoridade máxima. Não sou eu que tenho que consertar o mundo sozinha. Este é um trabalho muito grande para qualquer indivíduo. No entanto, quando reconhecemos nossas limitações, não estamos desistindo. Reb Simcha Bunim nos diz para pegar do nosso bolso coletivo o pedaço de papel que diz, eu sou apenas poeira e cinzas, internalizar a ideia de que não somos a autoridade máxima, e começar a trabalhar. Porque do outro lado temos a frase que continuará nos empurrando para a ação, o mundo foi criado para o meu bem. O equilíbrio entre esses dois pedaços de papel nos diz—somos limitados, e temos o potencial de ajudar Deus a fazer deste mundo um lugar melhor. 

Como o rabino Tarfon nos ensina no Pirkei Avot (Capítulo 2:16): “Apesar de você não ter que completar a tarefa, você não está livre para abandoná-la

Uma visão equilibrada da humanidade inclui o que podemos fazer, o que devemos fazer, e a certeza de que, como humanos, não temos a obrigação de ser perfeitos. Há limites para o poder dos seres humanos, e contamos com Deus para nos conectar com nossa força interior e com outros para trabalhar de diversas formas para a melhoria de nosso mundo. Toda vez que temos a ilusão de controle, é hora de tomar a nota do nosso bolso esquerdo que diz que eu sou apenas poeira e cinzas. E quando percebemos que temos a obrigação de trabalhar junto com o Eterno para trazer uma era de paz, de saúde, de amor para este mundo, pegamos a nota do nosso bolso direito que diz que o mundo foi criado para o meu bem. Embora certamente limitados, podemos desempenhar um papel fundamental quando vamos em frente, fazendo deste mundo um lugar melhor.