Em geral, prefiro não escrever sobre política e políticos. Neste clima polarizado em que vivemos tudo se torna uma provocação, cada palavra dita a favor ou contra um político (ou uma causa que se tornou politizada) imediatamente nos coloca em uma categoria imutável que não reflete a totalidade de qualquer ser humano específico e seus pensamentos, seu coração, sua essência. No entanto, sinto-me compelida a comentar sobre a invasão, semana passada, do Capitólio em Washington, DC.
Em 6 de janeiro de 2021, o experimento americano foi testado, quando uma multidão de insurgentes atacou o Capitólio como um protesto ao resultado das eleições presidenciais. Eles foram motivados pela perpetuação de uma mentira (que houve fraude extensiva na contagem dos votos), pelo desejo descarado de manter a presidência (sem qualquer pensamento sobre as consequências de tal ato), pela desinformação e pelo discurso inflamatório (pelo presidente em exercício, pela mídia de direita, por agentes desavergonhados que ganham muito pela semeadura da discórdia). E embora a mídia liberal possa ser responsabilizada por exageros às vezes, este não é o caso desta vez. O edifício do Capitólio foi invadido e vandalizado por um grupo de pessoas que internalizaram a mensagem vomitada por uma vertente da política, e resultou no que vimos na última quarta-feira. Na América de 2021, qualquer discurso que promova o ódio e a confusão é inaceitável. As palavras que motivaram essa violência são o tipo de palavras que têm sido ditas por muitos anos, que colocam um americano contra o outro, diminuindo as opiniões dos que não concordam conosco, insuflando as chamas do atrito. Todos nós participamos deste tipo de discurso, e se faz necessário hoje em dia controlar aquilo que falamos. Infelizmente, algumas pessoas têm recorrido à violência e ações motivadas pelo ódio, enquanto outras não.
Lembro-me de uma passagem no Pirkei Avot (Capítulo 5:17), uma coleção de ensinamentos por dos séculos I e II da Era Comum:
Toda controvérsia que acontece em nome dos Céus está destinada a ser permanente, e toda discussão que não e’ em nome dos Céus não vai durar. Qual é o tipo de controvérsia que e’ em nome dos Céus? As que aconteciam entre Hillel e Shammai. Qual é o tipo de controvérsia que não está em nome dos Céus? Aquela perpetrada por Korach e seus seguidores.
Os sábios Hillel e Shammai discordavam sobre tudo relacionado à Lei Judaica, e seus seguidores continuaram sua tradição. O Talmud registra seus debates acalorados sobre a Lei Judaica e como executar os mandamentos de Deus, sobre como viver a vida judaica. Eles discordavam sobre a implementação, não sobre o objetivo final, que era determinar a melhor maneira de viver na comunidade respeitando o Divino.
Korach discordou de Moisés sobre quem deveria ser o líder do povo. Moisés era o líder do povo, e Korach queria esse status. O texto da Bíblia hebraica diz (Números 16:1): “E Korach, filho de Izhar filho de Kohath filho de Levi, tomou a si” junto com algumas outras pessoas, “para se revoltar contra Moisés”. Rashi, um comentarista bíblico judaico medieval, explica a estranha redação “tomou a si mesmo”: Korach queria a liderança por sua vaidade pessoal, não para o bem da comunidade. Seu nome nunca será lembrado para sempre, porque tudo o que ele queria era o poder, sem levar em conta as dificuldades envolvidas em tentar equilibrar as necessidades de uma comunidade (uma parte fundamental da liderança).
De acordo com nossa tradição, as pessoas que incitaram os eventos em 6 de janeiro não serão lembradas gentilmente nem pela história, nem nossa memória coletiva. Eles sempre serão lembrados como as pessoas que não se importaram com o país, apenas por seu poder. Eu anseio pelos dias em que nosso país se comportará à maneira de Hillel e Shammai (e seus seguidores), que tiveram debates acalorados na academia, mas viviam juntos como uma boa comunidade. Que este país seja capaz de parar o discurso que só destrói, que não constrói, as palavras que não agregam nenhum valor à nossa comunidade.
