Na Imagem de Deus

Na semana passada, ficaram ainda mais claras as atrocidades cometidas nos Estados Unidos contra pessoas de pele negra. 

Os princípios simples que são a base de minhas crença e de minha religião não se refletem no comportamento das pessoas. 

Minha compreensão do que vem a ser um ser humano neste mundo vem do primeiro capítulo da Bíblia hebraica. Lemos em Gênesis 1:27:

E Deus criou o ser humano à imagem de Deus, à imagem de Deus, Deus criou o ser humano; Deus macho e fêmea os criou. 

De acordo com o judaísmo, o ser humano, criado a partir do solo (a palavra em hebraico para terra/solo é Adamah, e a palavra para ser humano é Adão), é criado na forma masculina e feminina, à imagem de Deus. Os rabinos do período talmúdico expandiram esse conceito afirmando que ninguém pode dizer que são melhores que os outros, já que todos nós viemos dos mesmos ancestrais. Além disso, apesar de todos nós sermos únicos, somos todos criados à imagem de Deus. No judaísmo, nossa cor, nosso gênero, nossa sexualidade, nossas habilidades, nossos corpos, nossas mentes, e nossas crenças vêm da mesma fonte, Deus.

Por muitos anos resisti à ideia de que a cor da pele poderia determinar a forma como uma pessoa deveria ser tratada. Na minha ingenuidade, eu não conseguia entender por que uma pessoa seria tratada de forma diferente porque ela é negra.  Na minha concepção de mundo todos nós sempre fomos iguais, como minha tradição me ensinou. As pessoas que tratam outras pessoas como inferiores por causa da cor de sua pele estavam erradas, e só seria necessário lhes mostrar seu erro para que mudassem de opinião. Claro que eu sabia dos problemas históricos provindos do racismo e do tráfico de escravos. Mas em pleno século XXI, estas coisas estavam relegadas ao passado, e os problemas seriam outros.  Apesar de continuar acreditando que racismo não tem lugar em nossa sociedade, agora entendo que há coisas que acontecem com seres humanos negros que não acontecem comigo, baseadas apenas na cor da minha pele. Não sou seguida nas lojas e tratada como uma criminosa devido apenas ‘a cor da minha pele. Não se considera de praxe que eu esteja em uma cena de violência. Ninguém acha que posso lidar com mais dor por causa da cor da minha pele e me dar cuidados diferentes em um hospital, como aconteceu com a tenista Serena Williams. Não sou parada por infrações de trânsito, e não sou considerada culpada até que minha inocência seja comprovada (o que acontece muito aqui, em flagrante violação da lei americana). Claro, como uma judia latina, sofri minha parcela de preconceito, e minha família sofreu num passado muito recente os horrores do antissemitismo. A história me ensinou que sempre que vemos os outros monoliticamente, quando julgamos as pessoas porque elas fazem parte de um grupo e não por quem são individualmente, os problemas se multiplicam. Isso é o que vem acontecendo há muito tempo, continuando até hoje, com os negros na América. Julgar as pessoas pela cor de sua pele é inaceitável. Agir em relação aos outros baseados em generalizações sobre a cor da pele é errado. No entanto, acontece todos os dias. Por essa razão, embora minha tradição tenha me ensinado que somos todos indivíduos criados por Deus, à imagem e semelhança Divina, e portanto não podem ser julgados pela cor de sua pele, aprendi que não existe tal coisa como ser daltônico quando se trata de cor da pele. Os EUA experimentam uma pandemia de racismo há muito tempo. Some-se a isso os medos, a insegurança econômica, as ameaças à saúde e a exploração de todas essas questões para ganho político e temos uma explicação para a agitação civil pela qual estamos passando. Estou com raiva por ser o ano de 2020 e ainda sermos atormentados pelo racismo. Estou enfurecida ao saber que há aqueles que alimentam a divisão para ganhos políticos e econômicos, capitalizando a vida e a dignidade de seres humanos. E minha ira aumenta ao saber que vidas negras estão constantemente em perigo. Este desrespeito pela vida humana tem que parar imediatamente.

De acordo com o sábio judeu medieval Moshe ben Maimon, o Rambam, o processo de arrependimento verdadeiro começa quando se reconhece os erros, pedimos desculpas pelo que fizemos, e quando confrontados com a mesma situação, não repetimos nossas ações. Reconheço minha ingenuidade. Estou indignada por ainda não viver em um momento mundial de respeito mútuo e compreensão. Adiciono minha voz a todos aqueles que estão gritando contra as injustiças e desrespeitos flagrantes a vida humana que define a América em 2020. E eu me comprometo a estar consciente de preconceitos velados. Sei que não serei perfeita, que sou propensa a cometer erros. Não há escolhas, no entanto. Se eu quero um mundo melhor em breve, tenho que me comprometer a enfrentar as difíceis verdades agora.