Respiração. É algo aparentemente tão simples. E ainda assim, tão complexo.
O verbo hebraico para respirar, linshom, compartilha sua raiz com a palavra para um dos níveis de nossa alma, neshamah. No judaísmo místico, a neshamah é o terceiro dos cinco níveis da alma. É o nível da alma associado à nossa criatividade, consciência eàs nossas maiores aspirações. É através da neshamah que expressamos nosso caráter, e nossas emoções, como medo, amor, raiva, felicidade, surpresa, nojo e tristeza.
Todos os dias pela manhã reconhecemos a pureza e a dadiva divina que e’ a neshamah. No Siddur, no livro de orações diária, encontramos a meditação matinal, “Meu Deus, a alma (neshamah) que você plantou dentro de mim é pura”.
Quando prestamos atenção a nossa respiração (neshimah, em hebraico), ativamos este nível de nossa alma, a neshamah que Deus criou e cuidadosamente colocou dentro de nós. A respiração e a alma se interconectam quando buscamos uma conexão espiritual.
A conexão de nossa neshimah (respiração) e nossa neshamah (alma) traz à tona a percepcao do que está acontecendo ao nosso redor, e as maneiras pelas quais aspiramos agir com consciência, permitindo-nos processar nossas emoções e expressar nossa criatividade, bem como nossa sensibilização.
Há muitos anos venho meditando e focando na minha respiração e identificando as emoções que estão surgindo a cada momento. Sinto que fiz grandes progressos na minha capacidade de ter gratidão pelos milagres que acontecem todos os dias na minha vida. Estou mais em contato com o profundo prazer de comer um figo que cresceu no meu. Me alegra a doçura de sorrisos familiares, da emoção de conversar com amigos de todo o mundo através do zoom, do orgulho das realizações da minha família. Também desenvolvi a compreensão de onde vem minha raiva, por que estou sentindo tristeza, e o que está me deixando com medo. A compreensão dessas emoções está relacionada a minha habilidade de entrar em contato com minha respiração e, portanto, com minha alma. Sou grato a Deus pela minha neshamah (alma) e pela minha neshimah (respiração), pela capacidade de estar consciente e em contato com meus sentimentos. Eu digo a frase no Siddur cheia de kavvanah, cheia de foco espiritual. Esta é a razão pela qual neste último ano respirar, e sua conexão com a alma, tornou-se uma preocupação.
Em meados de março, nosso mundo mudou de forma profunda. Eu não vou mentir – eu não estava prestando muita atenção à pandemia. Eu me preocupei com o Bat Mitzvah da minha sobrinha, e com a minha transição profissional. De repente, não havia como evitar a realidade. Me vi de frente a um vírus assustador e mortal, que interfere exatamente com a respiração. A respiração me mantinha centrada, presente, e desde março os problemas que estamos tendo com ela me desequilibram. Mais de um milhão de pessoas, em todo o mundo, morreram, e muitas mais, sem dúvida, terão sequelas, por causa desse vírus. Um vírus que ataca a respiração. Essa luta literal que muitos estão tendo para poder respirar me tira o fôlego quando escuto o nível de desinformação propagada por políticos. Dói-me saber que coisas podem ser e poderiam ter sido feitas não o foram, por razões políticas. E’ uma afronta a falta de cuidado e preocupação com a vida humana. As dificuldades com a neshimah, com a respiração, esta’ machucando minha neshamah, minha alma.
A respiração neste ano também simboliza a falta de carinho cuidado com as questões ambientais. Vendo os incêndios na Califórnia, Oregon e Washington, testemunhamos as dificuldades que as pessoas experimentam ao tentar respirar. O medo e a insegurança resultantes da falta de respiração estavam estampados no rosto das pessoas. A poluição do ar, a existência de metais pesados na água, a lenta erosão do nosso solo por causa dos pesticidas grandes fatores em nossa dificuldade de respirar. Estamos tendo dificuldades com nosso respiração, com nossa neshimah, e isso está machucando nossa neshamah, nossa alma.
Meus problemas com a respiração também são afetados pelas imagens que vimos no início do verão, quando vimos um ser humano dizendo que não conseguia respirar, preso no chão, com o joelho de um oficial em seu pescoço. As imagens da morte de George Floyd voltam sempre, horrorizando minha neshamah. A dor aumenta porque escutamos em 2020 os ecos de outra morte, em 2014. As últimas palavras de Eric Garner também foram “Eu não consigo respirar.” Minha respiração fica presa nas correntes da injustiça, do racismo, e da brutalidade de sua morte. A brutalidade da morte do Sr. Floyd desencadeou mais brutalidade, um ciclo vicioso que espelha as indignidades e disparidades de nossa sociedade.
Hoje em dia, quando fecho meus olhos e sigo minha respiração, fico impressionada com as perdas devidas à desigualdade, disparidade econômica, sexismo, racismo e destruição do nosso meio ambiente. Essas perdas nos afetam como indivíduos, como famílias, como comunidades e como habitantes deste mundo. As complicações com nossa neshimah comprometem nossa neshamah. O Ari, rabino Isaac Luria, um kabbalista do século XVI, ensinou que uma pessoa que teve um sonho ruim é mais afetada, de uma forma emocionalmente negativa, do que uma pessoa que tem um pensamento ruim enquanto está acordada. Isso acontece porque quando se está acordado, a alma é envolta e protegida do dano pela armadura do corpo. Quando se está dormindo, a alma vaga livremente, sem escudo, e, portanto, é mais vulnerável. De acordo com o Ari, pesadelos atacam a alma quando ela está mais indefesa.
Nem mesmo o escudo fornecido por nossos corpos pode proteger nossas almas, nossas neshamot, do ataque constante que estamos experimentando durante este pesadelo. Aryeh Kaplan, o grande professor de meditação judaica, nos dá uma maneira de proteger nossas almas. De acordo com nossa tradição, recitamoso Shemah duas vezes por dia. Nesses momentos nos concentramos na nossa proximidade com o Divino (quando dizemos Eloheinu, nosso Deus), na união (quando afirmamos que Deus é Ehad, Deus é Um) e no amor (quando recitamos v’ahavtah”, e você amará”). Em hebraico, a palavra para amor, Ahavah, e a palavra para Um, Ehad, têm o mesmo valor numérico, treze.
Arye Kaplan escreve: “O amor é o poder que quebra barreiras e unifica opostos.”
Quando focamos nosso espírito ao recitarmos o Shemah, com nossa neshimah energizando nossa neshamah, afirmamos amor e união através de nossa respiração e através de nossas almas. Insistimos que podemos consertar o mundo quando observamos a conexão entre todas as coisas neste mundo, criadas por Deus. Canalizamos essa unidade e amor para este mundo porque somos criados à imagem de Deus, ao infundircada respiração com amor, senso de justiça e uma profunda responsabilidade pela melhoria do nosso mundo. Usamos nossa neshimah, para reabastecer nossa neshamah, nossa alma, uma neshimah de cada vez. Com nossas almas protegidas pelo amor e união da energia divina voltamos a este mundo, honrando a parceria com Deus na obra diária da criação.
Desejo que possamos sentir o poder da união que vem do amor. Que possamos inspirar o amor e a união e exalar os resultados tóxicos dos pensamentos individualistas e das pragas modernas. Que possamos sentir quecada neshimah, cada inspiração tem a capacidade de energizar nossa neshamah, nossas almas, com a necessidade de conscientização das mudanças necessárias para o bem estar de todos. Que possamos seguir nossa respiração e viver plenamente, com uma capacidade cada vez maior de entender que temos o poder de quebrar barreiras a fim de criar um mundo mais saudável através do amor e da união.
