Há uma passagem no TaNaKh1 que é’ uma das razoes de meu desconforto em relação ao conceito de guerras, que lemos na haftarah2 desta semana. Se encontra na história da profeta Débora. Havia um rei Canaanita chamado Jabin, cujo general, Sisera, era conhecido por sua proeza militar. Eles oprimiram os israelitas durante a época da profeta e da juíza Débora. O general israelita, Barak, vence a batalha contra Sisera, que foge e acaba encontrando sua morte nas mãos de Yael, uma mulher kenita. No final do poema de vitória de Débora, lemos (Juízes 5:27-28) que a mãe de Sisera se senta à janela esperando por ele, perguntando às mulheres ao seu redor: “Por que ele está tão atrasado? Por que eu não ouço o som de seus carros?”3
Nós, os leitores da história, sabemos que Sisera não encontrara’ sua mãe nunca mais. Ela não sabe disso. Na minha imaginação vejo esta mulher sentada na janela, esperando por seu filho, as imagens do menino que ele foi inundando sua memória. Imagino que ela veja passagens de sua vida, seu sorriso quando criança, seus primeiros passos, seu primeiro salto sobre uma poça de lama. Ela se lembra de seu cheiro de bebê, o som de sua risada, a luz em seus olhos. Da forma como leio esta passagem, o texto revela o medo e sensações desconfortáveis que qualquer mãe teria quando seu filho se atrasasse ao voltar para casa. Mesmo a mais desconectada das mulheres, uma que está acostumada a ouvir somente sobre as vitórias militares de seu filho sem pensar duas vezes sobre o que isso significava para outras mães, tem ansiedade sobre o paradeiro de seu filho ou filha. O texto compartilha a resposta de suas acompanhantes à sua pergunta angustiada: elas descrevem como imaginam sua chegada, coberto de despojos de guerra (e nós, os leitores, sabemos que ele não vai voltar, fazendo essas mulheres de bobas). No entanto, o texto não descreve a reação da mãe quando seu filho não volta. Isso é deixado para nossa imaginação.
Às vezes, na presunção da lembrança da vitória como leitora, eu poderia olhar para esta mãe como uma tola, esta mulher sem nome que se senta `a janela, acostumada com os sucessos de seu filho, esperando que ele volte para casa. No coração que espera retribuição cósmica por ações humanas, eu poderia olhar para ela como alguém que recebeu sua paga– afinal, será que ela pensou no sofrimento de outras mães? Outra leitura poderia ver sua dor como dano colateral. A mãe de Sisera é uma que pertence à fraternidade dos pais que só querem ver seus filhos sãos e salvos, voltando para casa ilesos. Não posso deixar de ver que o texto da Bíblia hebraica quer que eu tenha empatia com essa mulher, mesmo que eu me encontre do outro lado da história.
Este pequeno texto me ensina que a guerra (assim como a violência) tem muitas consequências, algumas inesperadas. O rei Jabin e Sisera eram inimigos dos israelitas. Eles desejavam danos e destruição ao povo de Israel e não foram bem sucedidos. Sabemos o que a mãe de Sisera passou, sua perda e sua tristeza. O texto nos lembra desta tristeza, destes danos colaterais. Na minha vida, embora outros possam prejudicar a mim e à minha família por causa de suas ações, não permitirei que eles machuquem minha alma e endureçam meu coração. Apesar de ficar chocada com as ações de certas pessoas, e a certeza que sempre buscarei justiça por coisas que outros fizeram que provocaram catástrofes na minha vida pessoal e comunitária, não esquecerei que os outros são pessoas. Devo manter o desejo vingativo sob controle. Se eu me permitir esquecer que todos nós fomos criados à imagem de Deus, se eu deixar a mistura de emoções nublar meu julgamento e só ver os outros como inimigos, endurecendo meu coração diante de seu sofrimento, estarei permitindo que outros machuquem minha alma. Hoje desejo que consideremos qualquer um que não fique no nosso lado como um ser humano. Eles podem merecer punição por suas ações, e têm que pagar pelo que fizeram. No entanto, a punição deve ser justa, levando em conta a sua ( e a nossa) humanidade. Não permitirei em meu coração o espaço para desvalorizar os outros, desumanizá-los, me transformando em uma pessoa vingativa, cega para o sofrimento dos outros.
Que possamos buscar justiça sem vingança, clamar por integridade com amor em nossos corações, e reconhecer com humildade a humanidade de cada um que caminha nesta terra.
1TaNaKh é um acrônimo para Torá, Neviym, Kethuviym (Os Cinco Livros de Moisés, os Livros dos Profetas, os Escritos), um nome hebraico para as Escrituras Hebraicas.
2Um trecho do Livro dos Profetas que é lido além da porção dos Cinco Livros de Moisés durante o Sábado, Feriados e outros dias especiais.
3 Estou parafraseando este versículo aqui, esta não é uma tradução do texto.
